25 maio, 2011

Nada ou o Tédio!

Existem dias em que a vida nos atordoa; em que só apetece que chegue o sono e com ele o esquecimento. E nestes momentos refugio-me na poesia - existem palavras que foram escritas a pensar em nós. Deixo-vos com este breve poema de Cristovam Paiva: "Nada ou tédio".
Do futuro não apetece nada,
Do passado não tenho saudades de nada,
Do presente não me seduz nada,
Apetece-me dormir num buraco escuro.
- E que ninguém fale de mim!



Alice a caminhar sozinha.

24 maio, 2011

Onde é o fim do mundo?

Este pequeno texto retirado do livro "Fabulário", de Mário de Carvalho, faz-me sempre pensar que realmente a nossa dúvida é diária - onde estamos, para onde vamos e o que somos. Chegamos ao nosso objectivo, mas logo a interrogação surge: era isso mesmo ou outra coisa?
Vivemos de dúvidas e movimento!
Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi. Era uma grande falésia que dava para um abismo.
- Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? - duvidou o homem.
- Aqui ou lá em baixo?


Alice e as viagens
foto de Gilbert Garcin

25 janeiro, 2011

Dos Labirintos - 8

é o bastardo a atormentar a calmaria da tarde que renasce para ser apedrejado ao anoitecer e continuamente pela linha pérfida do viver se vai deixando humilhar pelas mãos que lhe  atravessam o ânus e conspurcam a alma de romantismo de ficção num falso revivalismo de sentimentos parecendo esquecer que todos são putas de algo continuando a morder por crueldade contra os anónimos fazendo parte deste grupo os íntimos de palavras e de sexo e então a babar orgulhos o carrasco rasgará o seu ventre.

Alice e as Luas

10 dezembro, 2010

Faz-me falta a maresia.

Nos dias de chuva, se não posso ver o mar, 
gosto de o imaginar dentro do meu quarto. 
Faz-me falta a maresia.
Então oiço Arvo Part.

Alice a caminhar sozinha.

Partir.

Era ainda noite fechada
Levantei-me e parti. 
Fui em direcção ao mar. 
Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, 
contornei falésias; 
afastei-me de casa o mais que pude. 
Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha; 
vi crepúsculos e noites sobre um rio,
amei a existência.
Al Berto

Alice a caminhar sozinha

Nos acasos.

Nos acasos crescemos.
Nos acasos morremos e tranformamo-nos em pó.
E no pó da existência voamos nos céus vadios e luminosos.
Nos acasos a existência percorre um caminho sorridente,
entre o principio e o final de tudo.

Alice e os Acasos



02 dezembro, 2010

Avib.


O meu nome é Avib. Tenho 10 anos e vivo à nove neste aquário. Agora tenho esta cor encarnada, mas nem sempre foi assim. Vim de muito longe, daqueles lugares em que as águas são mornas e a areia tão fina que quase parece voar. Nessa altura era negro e parecia feito de rocha preta. Aprendi posteriormente que o meu corpo poderia mudar de cor sempre que eu quisesse, para me defender das ameaças dos rios.
Agora estou em casa de um homem que passa os dias a mudar as cores do mundo. Assim e como devem imaginar, não necessito de fazer qualquer esforço para viver.
Um dia acordei e lá estava ele, o pintor, a olhar para mim com os olhos muito abertos. Confesso que me senti bastante assustado, a ponto de sentir a vida ameaçada. Ainda a tremer, decidi que se fosse negro, talvez ele se sentisse também intimidado. Mas acho que esta não foi uma decisão sábia, pois, imediatamente a seguir a ter reparado na minha mudança de cor, começou a falar em voz alta e a gesticular, como se estivesse muito furioso. Talvez a cor negra tivesse sido muito agressiva para ele e quem sabe, tivesse ficado muito irritado comigo. A passagem dos anos deu-me esta capacidade de reflectir sobre as experiências e por isso resolvi que a melhor solução seria tentar uma conciliação.
Já mais calmo, o pintor olhou para mim. Eu era agora um peixe amarelo.

Alice
Alice e as estórias do mundo

Al Berto, O Medo

       em tempos li muitos livros, hoje raramente leio. os livros cansaram-me, devoraram-me a pouco e pouco o prazer de ler. 
         o vento da noite traz imagens: um rapaz de calcário deitado no dorso de um cavalo azul perfura a claridade do mar. abro a janela do sonho, aceno-lhe, mas ele não me pode ver.
         uma ave de palavras escreve no espaço a remota sabedoria do voo, depois desce e vem pousar suavemente na palma da mão. olho-a mas não ouso tocar-lhe.
acordo quando a ave e o rapaz se deitam sobre a pele. abro os olhos e estendo a mão e o corpo para fora do sono, ergo-me por dentro do imenso vazio.
         tudo se despedaçou. o sonho, e o amor que é sempre tão breve. o mundo dorme sob o vento. só eu continuo acordado, em vigília. se houvesse agora uma catástrofe eu daria por ela. levantar-me-ia daqui para encarar a morte, dizer-lhe que são inutilidades o que arrasta consigo.
         estou gasto. dei-me sempre mais do que podia. não há nada que me possam roubar, sou um homem espoliado de todos os bens, de todas as doenças, de todas as emoções.  sou um corpo pronto para a viagem sem regresso, para o crime e para a morte. sou um corpo que se evita, um homem cujo nome se perdeu e cuja biografia possível está no pouco que escreveu.  sou um corpo sem nacionalidade, pertenço às profundidades dos oceanos, ao voo da ave migrante. sou um alfabeto e não sei se terei tempo para me decifrar.
         lá fora anoiteceu.
         são raras as claridades que do sangue sobem ao rosto. há um lume invisível no teu olhar, uma visão que o espelho me revela: cintilam cristais enquanto dormes, uma árvore cresce nos pulmões.  assim construo as paisagens, assim te ofereço a morada de sossego e de prazer. mas tu não vens, porque me és exterior. posso criar o universo inteiro a partir das minhas células, só não posso criar-te a ti, corpo que morre na falsa juventude dos espelhos...
         ... a paixão revelou-se-me no instante em que percebi que sabia quase tudo da vida, mas já não foi possivel perder-me na tentação do suícidio. nunca amei e nunca fui amado: ignoro se isto é verdade, o mai provável é ter inventado, um dia, esta mentira, unicamente para me salvar.
         que horas serão para lá deste século?
         onde estaremos neste momento?
         estarei eu em ti ou serás tu que me devoras e me comoves?
         ... teu nome, pronuncia teu nome para que seja impossível esquecer-me do meu. diz-me o teu nome de ontem, quando éramos o reflexo exacto um do outro.  toca-me o rosto com o teu nome, ou pousa-o sobre as mãos; debruça-te para dentro de mim e deixa que o segredo do tempo fulmine os ossos.

in «O Medo 3», 1985


Alice  e as viagens

23 novembro, 2010

Rebecca Dautremer

Nas minhas viagens pela literatura infantil encontrei esta fabulosa ilustradora, da qual me tornei fã incondicional.
Não consegui parar de olhar para as suas fabulosas ilustrações, ricas em pormenores e em afectos.
Imaginar é voar....













Alice  e o Mundo Encantado

13 outubro, 2010

Cartas de Lady Alice,

Amo meu,
Desculpai minha ousadia, mas a inquietação perturbou de dúvidas o meu dia.
Apraz-vos pensar que sou um ser somente das trevas?
Pois sabei que a luz também invade a janela do meu quarto, deixando atordoada a minha alma.
Se me quereis, e eu digo, se me quereis una, conhecei de mim o negrume e a claridade de uma qualquer manhã de pássaros, sussurrando despertares.
Peço-vos, meu amo, meu servo leal, não mais me enclausureis em lugares longinquamente negros, de janelas fechadas.
Não mais regressarei a essas grades, juro, não mais regressarei.
Dai-me o céu, o ar e o vento na luz do dia, misturando-se na multidão e no lusco-fusco do anoitecer, na invisibilidade de nossos corpos despidos.
Se me quereis, e eu digo, se me quereis com a força de um desejo de fogo e na minha pele depositais vosso consolo, então levai-me para longe das grades tortuosas de outrora, salpicadas de sangue e mentira.
Ah, meu amo…serei vossa serva, se me deres asas; serei vossa condenação se me fizeres tumba.
E neste enlace do nosso caminho, nada mais me restará do que amarrar-me no cavalo mais veloz e fugir de vosso encanto.









Lady Alice.

Textos secretos de Alice