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18 setembro, 2013

Apontamento

Vida - 
Ocasião excepcional
para...
pelo menos uma vez,
tropeçar na pedra,
molhar-se na chuva,
perder as chaves na relva;
seguir com o olhar uma
faísca no vento
e sem parar algo de importante
não saber.

Wistawa Szymborska






Alice e os dias que passam

11 julho, 2012

O Princípio.

O álbum ilustrado - O Princípio -  de Paula Carballeira e Sonja Danowski foi para mim um achado precioso nos últimos dias. Sem dúvida que em tempos como os que correm diante de todos nós, pleno de dificuldades,monstros gigantes, os olhos teimam em não ver os moinhos de vento ao longe.  Ler estas palavras faz-me refletir sobre a maneira de se contornar os momentos mais ingratos.
Tenho para mim que muitas das vezes teimamos em deprimir com o que nos acontece, sem conseguirmos avistar o que de bom continuamos a ter. Sem dúvida que sem coragem, perseverança e muita insistência nada se consegue. Quando alguém sorrir, será de certeza o princípio de algo.


Uma vez houve uma guerra.


Quando a guerra acabou, ficámos sem casa.
- Não importa - disse a mãe. - Temos um carro.
Passámos a viver no carro.
Desde então, viver era viajar.
Depois fomos ficando sem roupa.
- Melhor - disse o pai -, menos para lavar.
Tomávamos banho vestidos no rio
e estendíamo-nos ao sol para nos secarmos.
Não havia luz elétrica,
por isso os barulhos da noite
metiam ainda mais medo
e dormíamos muito mais perto
uns dos outros.
Toda a gente estava triste.
Tinham queimado os livros da biblioteca.
O chão estava coberto de vidros.
Levámos algum tempo a habituar-nos a caminhar
entre os vidros e as cinzas.
Um dia,
alguém começou a brincar.
Outro dia, uma menina
que ninguém conhecia
soltou uma gargalhada.
Depois dessa,
houve mais.
Um velho cozinheiro sentou-se
e começou a falar de receitas.
As suas palavras mataram-nos a fome.
Pelo menos nessa tarde.
Quando o sol se pôs, os carros desejaram
boa noite uns aos outros com as buzinas.
Era como se estivessem vivos.
Estávamos vivos.
Foi como uma festa.


A festa do princípio de algo.


Paula Carballeira
Sonja Danowski





















Alice e as descobertas.

09 julho, 2012

Cansaço.

Álvaro de Campos falava de um cansaço - de um cansaço interior - "um supremíssimo cansaço" que se carrega como uma pedra que nos afunda algures. Por vezes sinto assim, esse pesar dos dias que correm e encontro nas palavras de alguém uma tradução fiel dos sentimentos, dessa espécie de desalento que me invade.
Ao refletir essas emoções, sei que é uma espécie de "desesperança" no horizonte do tempo, nos rostos dos que por mim passam ou até talvez uma demasiado grande exigência face ao mundo. Às vezes insistem em moldar-me e eu vou ver o mar.
Hoje é só esta sonolência vaga de quem quer acreditar que o amanhecer será outro, uma vontade de esquecer a realidade plena de multidões invisíveis.
Pelas mãos do José Luis Peixoto, deixo-vos estas palavras tão belas.


não. ninguém saberá o que aconteceu.
estou muito cansado.
apetece-me dormir até morrer.
José Luis Peixoto
a criança em ruínas



imagem de Helena Almeida
Alice a caminhar sozinha

06 fevereiro, 2012

Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.

Às vezes este sentimento de inutilidade (como tão bem o Gonçalo expressa no seu poema) entranha-se profundamente e torna-se uma espécie de vírus dos nossos pensamentos mais íntimos. Todos nós, em determinado momento pensamos um pouco assim nestes modos "não adianta nada" . Queremos acreditar que um novo dia traz uma manhã limpa e a esperança renasce. É assim que tentamos controlar a dor da existência. Das palavras nasce a poesia e dela a vida sonhada. Uma boa semana.


Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.
Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na 
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe 
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo porque a mulher o
deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são 
enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve
nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar
às mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso
corpo, mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas,
tentamos fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas,
e isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares.
in O homem ou é tonto ou é mulher.
Alice em viagem interna.

31 janeiro, 2012

Gostaria que ela voltasse.

Mais uma vez me surpreendo com este autor. Dei por mim a querer ler mais deste bonito lugar construído pelo Gonçalo e o deslumbramento aumenta em cada página lida. De tempos a tempos há encantos que nos deixam simplesmente a planar sobre a terra. Ler tem destas coisas: faz-nos voar!

Gostaria que ela voltasse.
Quando ela está eu sofro muito,
mas também danço muito.
Sofro 50 e danço 150.
Fico a ganhar 100 de dança.
Por isso é que quero que ela volte.

As mulheres são bonitas, mas ela ainda é mais bonita
que as mulheres.
Tem pés de bailarina mesmo quando está sentada.
E é muito difícil ter-se pés de bailarina quando
se está sentada.
Quando ela dorme parece que todo o quarto dorme.
É como se a própria cama dormisse.
É como se os móveis e os lençóis dormissem.
As paredes dormem.
As portas dormem.
As janelas dormem. Tudo dorme.
Por isso é que eu gosto tanto dela.
Gosto de olhar as coisas quando elas dormem.

Quando ela adormece, adormece o mundo e aí eu aproveito
para viajar.
Gosto de viajar quando mundo dorme
Porque assim consigo ver as coisas a respirarem naturalmente.
Só se é natural quando se dorme.
Quem acorda, acorda os instintos de sobrevivência.
É melhor andar por cima da terra quando ela dorme,
do que quando ela quer sobreviver.

Quando a Natureza dorme podemos correr à vontade pois
será impossível tropeçarmos, será impossível sermos lentos
ou demasiado rápidos.
O nosso ritmo é o certo.
Tudo vive nos seu sítio e nós observamos, acordados,
as coisas do alto.

É por isso que eu gosto dela. Dessa mulher.
É por isso que eu gostaria que ela voltasse.
Ela adormece o mundo para eu passar
e só quando eu estou em total segurança é que ela acorda.
É estranho: ela protege-me quando dorme.
Protege-me quando dorme.

Gonçalo M. Tavares

in O homem ou é tonto ou é mulher.




Alice e  as viagens

19 dezembro, 2011

A arte de ser feliz

Um dia escrevi assim: A felicidade é um momento; muitos momentos. Aproxima-se lentamente. Surge no horizonte e deixa-se cair por entre chuva miudinha com aroma a jasmim Quando encontrei o poema de Cecilia Meireles sobre a arte de ser feliz senti-me ouvida, numa espécie de sintonia. Ela escreve assim: 


Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.



Cecilia Meireles



Alice a caminhar sozinha

23 novembro, 2011

Os pesadelos

Gonçalo M. Tavares - gosto cada vez mais deste autor português. No sábado, num encontro literário, ao ouvi-lo falar , essa espécie de afecto, aumentou. As palavras que foram ditas revelaram-me aquele entendimento de um sentido que só se percebe se também o percebemos como nosso. A certa altura ele referiu que escrevia rápido, muito rápido, sem se importar com os aspectos formais ou com a semântica do que surgia no ecrã. Esse sentimento visceral da escrita vivo-o muitas vezes; não sei de onde vem: aparece subitamente, irrompe do corpo, da terra e as imagens voam atordoadas pelas palavras. É tão bom: essa perda da consciência momentânea, o aceleramento cardíaco, o fluxo de vida, da noite e do dia. O meu pesadelo é acordar e não conseguir escrever, como se de uma amnésia permanente se tratasse. Quanto a isto, aprendi um pequeno truque: não me esqueço de, ao acordar, sacudir a almofada à janela,
para que o pó do sono mau não permaneça. Fiquem bem!


Os pesadelos
O vinho aproxima o que está longe nos dias,
e afasta o que está próximo no espaço. Memória, sim, 
mas distorção também.
Tens demasiados acontecimentos maus no teu corpo,
e não esqueces.
Deves fechá-los como se fecha uma porta: com chave de três voltas.
Mas não adormeças: os pesadelos apanham facilmente
quem dorme com a cabeça pousada numa mesa dura de Café.
Materiais como a madeira, precisamente, entupidos de atrito,
não permitem que os discursos do sono saiam da cabeça
para o exterior. Daí os pesadelos serem mais frequentes
na cabeça sobre material duro
que na cabeça deitada sobre a almofada gentil. Mas mesmo
que os teus ossos mais altos
se encaixem em superficie meiga,
não te esqueças de, ao acordar,
sacudir a almofada à janela,
para que o pó do sono mau não permaneça,
em redor de si próprio,
como uma poça de água,
a criar bicho.

(de Gonçalo M Tavares)




Alice e os acasos.

20 outubro, 2011

Cansa ou não cansa?

O titulo de um livro dizia: viver todos os dias cansa.

Cá para mim, viver não cansa; não no sentido literal da palavra vida. O que cansa é o peso da monotonia do dia-a-dia, o facto de ter de reunir bocadinhos de esperança e fazer disso uma bagagem de energia que permita lidar com o cansaço que se vai acumulando. E esta sociedade leva-nos à loucura, precipita-nos no abismo, disso não tenho dúvidas. A pressão é que cansa; o desamor é que cansa; a falta de companheirismo é que cansa; a falta de palavra e de verdade é que cansa, a ausência de tolerância é que cansa, a ausência de uma palavra feliz é que cansa. Cansa, não é? 
Viver, não.


Já agora Vale a pena ler o livro de Pedro Paixão - Viver todos os dias cansa.
Alice em viagem interna.

03 junho, 2011

Ao encontro de mim: "Fumar ao espelho!"

Por estes dias e na sequência da Feira do Livro aqui do Porto, tive a oportunidade de ver um belíssimo filme/documentário de Manuel Mozos - Diário de Bordo. Interessam-me estes filmes em que as pessoas falam das suas vidas, do seu entendimento das coisas, dos seus pensamentos: é incrível a riqueza que alguém constrói e que fica por dizer, em muitos casos. Sabemos que o eu lírico não é o eu pessoal, mas por detrás do escritor existem em casos pontuais Pessoas Enormes; enormes em capacidade de percepção do mundo que as rodeia E hoje deixo-vos com um texto belíssimo do José Cardoso Pires intitulado "Fumar ao Espelho". Deleitem-se com ele que eu vou fumar em frente ao espelho!
























"Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. Por trás, em fundo, tem-se um cenário do presente imediato (a porta do quarto, um cabide vazio) mas esse presente, logo à segunda fumaça já é passado (a porta desfez-se, o cabide voou) e tanto mais passado quanto mais mergulhamos no cigarro. O olhar envelheceu, foi o que foi.E então, por mais que a gente diga que não, começam a aparecer as pegadas históricas do Dinossauro que nos andou a foder a vida durante cinquenta anos. Adivinhamo-las à superfície do vidro, são manchas fósseis, gretadas, então não se vê logo?, e, escuta à distância, ouve-se o carrossel do medo. Aqui e ali vão-se levantando farrapos do muito que em nós se adiou e do muito que em nós se morreu, e nalguns casos podemos até distinguir o traço de liberdade que abrimos com os nossos livros nessa desolação prolongada. Pronto, estamos feitos, José. De agora em diante começa o rememorar, devias saber.
Certo, cinquentas... muito ano. Muito silêncio, muita humilhação. Mas diz-me, espelho, vale a pena recordá-los? A que propósito agora esse arranhar de ferida, essa recriminação?
José, no espelho, encolhe os ombros. É como se não me ouvisse, como se não se ouvisse, nada a fazer.
No espelho os olhos só se vêem reflectidos noutras coisas, segreda-me por cima do ombro o honorável William Shakespeare a páginas tantas (e com franqueza, deitam um bafo podre, estas palavras). Mas nem assim, José continua na dele. José é José, suspeita que o querem despir do passado para que fique incapaz de o reconhecer quando lho puserem pela frente na primeira oportunidade. E defende-se, não desarma. Daqui a pouco está com certeza a citar Santayana (não me admirava nada) e a sublinhar desgraças. Revê exemplos, concita mortos porque (palavras de Santayana, eu não dizia?) «quem esquece o passado arrisca-se a vivê-lo outra vez» e ao chegar a este ponto não adianta mais. Disse. Ou melhor, eu disse.
Mas fumar ao espelho não é só ver para trás olhando de frente. É também um modo-josé de futurar, para lá do rosto que o repete e que fumega. E aí, deixa que te diga, o pessimismo ... que nos lixa. Porquê? Ah bom, porque... uma dor de colhões, não te rias. Absolutamente. O pessimismo, se não sabes ficas a saber, sempre teve a ver com carências afectavas. Daí que ele seja incómodo por natureza. Incómodo para o próprio que, sabe Deus, tem de viver toda a vida com essa dor, esse nó, e incómodo para a Pátria que já mandou para o Camões todos os Velhos do Restelo que lhe andavam a dar azar. Isto - por um lado, aquele a que podemos chamar Da Saúde Nacional. Mas há o outro, o da superstição. Absolutamente. O pessimismo acaba sempre por funcionar como uma superstição de prudência: prevê o pior para ir acumulando resistências contra o mau mas sempre na esperança de que o mau nunca venha a acontecer. E se acontecer, percebes, também já não perde tudo, ganhou pelo menos a glória da razão. Uma superstição pela negativa ou por efeito contrário, dirá algum, mas muitas ... realmente nesse jogo a dois gumes que acaba o austero pessimismo. Que horas serão isto?
Horas? Nos colóquios de espelho nunca é tarde nem é cedo nem hora certa sequer, quem me ensinou isto foi o reverendo Lewis Carrol que tinha a mania dos vidrinhos às cores. Se calhar ... Por isso que estes exercícios, se a gente não tiver cuidado, acabam num ritual que não interessa nem ao Menino Jesus. Um ritual, José, onde o padecente, em vez de incenso se esfumaça em nicotina. Em vez de incenso, tabaco, em vez de hossanas, Provocações, e às duas por três, se a gente não mete travões, esta coisa, este frente-frente, acaba numa auto- contemplação. Ou numa autoflagelação, para o caso tanto faz. Porque aqui tudo se passa entre o indivíduo e as suas imagens e, curiosamente, numa conversa muda que sabe tanto a círculo vicioso como este cigarro que eu tenho nos dedos. Fumo-o e ele fuma-me, estás a ver?
Fumar ao espelho, solidão dobrada - diria o meu irmão se aqui estivesse (mas não está, morreu aos vinte e um anos num avião militar), ele que, sem cigarro e sem espelho, acabou por conhecer a mais estranha e a mais ampla solidão que se pode conhecer. A do espaço final, vê tu. A da imensidão azul onde a morte o foi procurar, 3500 pés acima do planeta dos homens.
Não, nisto de alguém se interrogar ao espelho, olhos nos olhos, é consoante. Tem muitos ângulos - e tu estás aí, que não me deixas mentir. Vários ângulos. Há quem procure, santa inocência, fazer um discurso de silêncio capaz de estilhaçar o vidro e há quem espere receber, por reflexo da própria imagem, algum calor animal que desconhece. Seja como for, o que dói, e assusta, e é triste e desastradamente cómico neste exercício, é o pleonasmo de si mesma em que a pessoa se transforma. Repete-se. Se bem que com feroz independência (todo o seu esforço é esse) repete-se em imagens controversas que a possam explicar.
Quanto à solidão de há pouco não há pleonasmo nem desdobramento que a salve nem mesmo os psicanalistas que temos cofres cheios dela. Para o vulgar contribuinte, a solidão resume-se a um vocábulo lamentoso ou a um fatalismo social de crédito comprovado, mas em boa verdade talvez não passe de uma metáfora do medo, simplesmente. Seja ela o que for, peço desculpa mas sem solidão ninguém vive. Solitário, não vamos mais longe, é este escritor que aqui está quando se entrega ao acto de escrever. Quer ele queira, quer não, só assim pode cumprir linha a linha a sua escrita na qualidade simultânea de autor e de leitor que são duas figuras distintas da Utopia de si mesmo. E depois? Há algum mal nisso?
De modo que fuma, José, deixa correr. Solidões, duplicações, masturbações, é tudo conversa ou pouco menos. Queimam os dedos, reduzem-nos a fibras secas se nos deixamos arrastar por elas. Concreto, concreto, só esse alguém que nos vigia, que te vigia, aí no espelho, e que nos escuta por dentro. Mas escutar, realmente? Para te ser sincero, ainda não percebi. Ainda não sei se... por arrogância, se por desconfiança que ele nos encara com tanta dureza.
Somos três agora. (Sempre fomos, tu é que não reparaste: dois que se olham e um terceiro que os escreve, olhando-se). No entanto, o rosto que nos é comum aos três está devastado pelo tempo. Esse aí não tarda muito que lhe caiam os dentes e fique coberto de rugas a bulir de vermes. Duvidas? Então espera por mais dois ou três outonos de cigarros e já vais ver. Três outonos, não lhe dou mais. Até lá vai continuar assim, em aresta viva, e com a tal contensão que, não sendo arrogância nem suspeita, ser o quê? Orgulho?
Não, orgulho, nem pensar. E se fosse, pior para ele que se calhar pouco fez para mudar o mundo e muito para não se deixar mudar. Aceitemos que é, antes, um endurecimento defensivo, para aí, sim. E aguardemos. O resto, Deus o dirá, se alguma vez o souber ler devidamente.
Tudo isto, já te disse, tem de ser encarado a vários ângulos. Sempre a vários ângulos, não te esqueças, porque, segundo alguns, os personagens deste tipo são de visagem errante. Como toda a gente? Como toda a gente, possível. Só que esse que tens diante de ti nunca na vida soube administrar a sua ima em pública, como se pode depreender logo à primeira abordagem. Porquê, não se sabe; as razões podem ser muitas. Pudor, impaciência, falta de traquejo, sei lá. Há também a independência, a independência... demasiado impeditiva, sempre foi, mas por essa ou por outras razões, a verdade é que esse talento nunca ele teve. E não se julgue que a lacuna não é grave porque a imagem de marca que os corretores das Letras e os lobbies da Opinião põem a circular no mercado a cotações de estarrecer. Ah, os lobbies, ah, os lobbies. Ah, perfumadas sacristias onde o livro em branco, antes de ser livro, já foi condenado ou marcado com uma pétala seca na página da eternidade.
Uma vez mais, silêncio, José mantém-se olhos nos olhos. Parece desconhecer que em qualquer álbum de glórias o verdadeiro retrato do paciente pode ser desfigurado com a mesma facilidade com que o fumo do cigarro o encobre ali no espelho. Nesse caso que se lixe e cara alegre, então não é?
Deixemo-lo portanto assim. Em directo e ao natural. Como se vê, tem o cabelo mais branco neste momento mas mantém a vislumbrada malícia de si mesmo que sempre se lhe conheceu. Pelo menos... o que eu penso - ou, antes, o que ele pensa. Vez por outra nota-se-lhe um perpassar de ironia pelo olhar, mas se o tem... luz breve e em geral magoada, não dá sequer para temperar o desalinho aparente que há nele e que provém mais de uma certa Lisboa à balda do que propriamente de outra coisa.
Quanto ao mais, pouco a acrescentar. Visagem martelada (já se disse), máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar - e é tudo.
Ah, e os cigarros! Em 1990, este autor ainda continua a fumar, imagine-se, e a perguntar todos os dias E agora, José. A cada interrogação aspira, fundo e lento, até o morrão do cigarro abrir brasa no vidro do espelho, e há alturas em que encolhe os ombros e pensa de alto «Acta est fabula», se assim me posso exprimir em sinal de despedida.
Mas é um dizer por dizer, nada de especial. Quando menos se esperar, ele aí estará outra vez nesta cadeira e neste lugar, a fazer resumo e projecto de si mesmo, e diga-se de passagem que não se dá mal assim. Como sempre, não tem angústia nem surpresa porque vai encontrar alguém que amanhã, dia comum, recomeça de novo a vida na primeira linha do capítulo que se segue.
Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita.
E com esta me despeço, adeus até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia.
Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês?
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 89-94
Ohares de Alice

26 maio, 2011

O esconderijo do homem triste

Sento-me e tento por instantes forçar uma concentração que não surge. As palavras flutuam sobre mim; tento agarrá-las e obrigá-las a ficar neste papel. Sinto-me aprisionada a um tempo e nada mais. Apenas em pensamento fujo; já corri do passado corajosa; já me perdi desse aprisionamento. Eis que me lembro de um texto, que aliás, como quase tudo em Al Berto, serve para ir traduzindo estes estados de ânimo e de escrita.


Não sei o que me aconteceu para ficar tão triste. 
Lembro-me de ter percorrido meio mundo à procura de imagens. Tinham- me dito: é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas. 
Mas eu não sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca encontrei as imagens que queria. Gastei as parcas forças que tinha neste trabalho, até que um dia me perdi junto ao mar. 
Resolvi construir, ali mesmo, uma casa. 
Tencionava não sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar- me, viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas minhas mãos. Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera havia anos. Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim, de túmulo. 
Assim não aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se subitamente em prisão. E talvez tenha sido isso que me pôs, assim, triste para sempre. Custava-me a crer que aquilo que eu próprio construíra acabasse de me atraiçoar. 
Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a casa. Não sei se ainda existe... o que sei é que a meio daquela fuga deseperada ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o esconderijo para a minha imobilidade. 
É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo. 
Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco(...).

Al Berto, in o Anjo Mudo






















Alice a caminhar sozinha 
foto de Elena Kalis